O batedor de palmas tristonho (um microconto) – Rodrigo Menezes

NA ESQUINA da praça do coreto, uma fanfarra de ciganos executava virtuosamente a sua música, ganha-pão, para transeuntes desinteressados e apressados, salvo um. Aparentemente estrangeiro (não diria “turista”, mas viajante, errante), estava comodamente recostado na mureta do outro lado da rua, fumando um cigarro, enquanto escutava e olhava a banda.

Fanfarra numerosa, difícil de sustentar, mais ainda de manter aquela excelência musical, a perfeita virtuose entre os instrumentos, e a perfeita simbiose entre os músicos.  Tocavam majestosamente, alternavam-se em solos, improvisavam, conversavam musicalmente entre os instrumentos, tudo isso sem nenhum esforço aparente, com graça, leveza e desenvoltura, enquanto riam, conversavam, faziam brincadeiras.

Dois violinos, um violão, um violoncelo, um saxofone, um trompete, um oboé, um dulcimer, uma cantora, duas velhas dançarinas e, o que mais chamou a atenção do forasteiro, em segundo ou terceiro plano, escondido por detrás da banda, como se não quisesse muita exposição: um batedor de palmas (descobriu depois, pela fofoca dos moradores, que era também batedor de carteira, por isso inclusive a indisposição dos transeuntes em relação à banda). Eis, pois, a função do rapaz na fanfarra, e não menos importante que as demais: bater palmas, o que não deixa de ser uma forma de percussão (neste caso, corporal, tendo o próprio corpo como instrumentista e instrumento).

Mas o que chamou a atenção do forasteiro foi a expressão, a fisionomia do batedor de palmas. Cabisbaixo, quieto, sem muita expressão ou efusão, limitava-se a cumprir a sua função, as palmas, de modo quase mecânico, automático, o olhar fixado, pelo pretexto de um ponto determinado no espaço, no infinito. Parecia melancólico, tristonho, sorumbático, o discreto batedor de palmas.

Uma análise pouco mais detida, por parte do nosso estrangeiro, revelaria algo distinto, levando-o a uma conclusão outra: não se tratava de tristeza (melancolia? talvez), mas da transfiguração exterior de uma contemplação interior, profunda e infinita, musical e abismal (mas de um abismo sonoro, positivo, culminante), expressão de um êxtase subterrâneo, cantante e silencioso, invisível e inaudito (contido, domesticado, musicado), de uma comoção que não parecia deste mundo, nem de “outro mundo”, de nenhum mundo; êxtase puramente musical, verticalização infinita que dispensa estruturas, como dispensa todo e qualquer esforço (todo o esforço sendo, na verdade, para impedir-se de se elevar demasiadamente, de cair para o alto).

Continuou a olhar, compenetrado, para o rapaz, escrutando-o, escutando-o, esforçando-se, sobrancelhas contraídas, olhos semicerrados, por decifrá-lo à distância: havia naquele batedor de palmas uma espécie de sorriso invisível, que estava nele, no seu rosto, na sua expressão, mas não lhe pertencia, nem surgia dele, senão de algures. Um sorriso abismal, grave, retesado, velado, dir-se-ia um “anti-sorriso” – meio maléfico, meio angelical, todo o contrário do falso sorriso exibicionista e inseguro.

Enquanto o batedor de palmas batia lá as suas palmas, ritmicamente, ao sabor dessa música ao mesmo tempo festiva e elegíaca que só os ciganos sabem fazer, outra parte dele permanecia imóvel, estática, extática, contemplando-se, de longe, fazer música… “Deve ser uma alegria indescritível, um gozo insuportável”, pensou o nosso viajante. E sentiu uma inveja fraternal daquele cigano, batedor de palmas (e de carteiras), sentiu inveja da banda como um todo, no fundo de sua simplicidade e pobreza, de sua riqueza musical. E sentiu, como um golpe de volúpia negativa, um tipo de pesar inédito, vertiginoso: o pesar por não ser músico, por não ser um batedor de palmas (e de carteiras) profissional.

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