“Ninguém sabe que estou aqui” – salvação do Belo e a feiura do mundo

SPOILER ALERT! Memo, personagem do filme Nobody Knows I’m Here [Ninguém sabe que estou aqui] (2020), no catálogo da Netflix, não é emo! Tudo levaria a sê-lo, mas não é o caso (eis a diferença que pode fazer 1 letrinha). Tampouco é ele o (novo) Joker: sujeito do puro ressentimento, inconsolável e irremediável, muito embora tenha todas as razões para sê-lo.”Don’t put up a happy face, just sing”, seria o slogan de Memo.

Como Sócrates, o protagonista do filme (divinamente interpretado por Jorge Garcia, da série Lost) é um baú de tesouros ocultos, uma existência lírica e musical que no passado fora pisoteada, humilhada, violada, desapropriada de si mesma, para que sua bela voz fosse reproduzida nas rádios e na TV como pertencendo a outro menino, um “posterboy” que estaria mais de acordo com os padrões de beleza para consumo da indústria cultural. De onde o título (tão acertado) do filme: “Ninguém sabe que estou aqui” – sugestão poética e delicada da invisibilidade de um corpo cuja voz fora desapropriada e traficada, de uma voz alienada de seu verdadeiro (grande) corpo.

À luz de “Nobody Knows I’m Here/Nadie sabe que estoy aquí”, coloco em pauta e em questão o enunciado do protagonista de outro excelente filme, Holy Motors (2012): “A beleza está no olhar de quem a vê/contempla.” Mais adiante, neste filme, a mesma afirmação será confrontada com uma melancólica suspeição: “Mas, e se já não houver mais olhos (olhares, almas, sensibilidades, para ver e contemplar a Beleza)? E se não houver mais senão lentes de vidro de smartphones, que sequer precisarão de nós para desempenharem as funções que foram feitos para desempenhar?

Por um lado, a conclusão intuitiva e consternada, alarmada, atônica e melancólica, a exemplo do título de Byung-Chul Han, de que o Belo está morrendo e com ele a nossa capacidade de contemplá-lo. Por outro, dissociando a equívoca aproximação entre Cioran e o novo Joker (2019) e desconstruindo as tentativas (infundadas, improcedentes) de equiparar o pensador romeno ao personagem dos quadrinhos e do cinema, argumento que Cioran possui uma alma mais compassada com a de Memo, interpretado por Jorge Garcia: 2 almas líricas, transfiguradas pela presença musical e invisível da Beleza…

“Para que reler Platão quando um saxofone pode nos fazer entrever igualmente outro mundo?”

“Sem meios de defesa contra a música, estou obrigado a sofrer seu despotismo e, segundo seu capricho, ser deus ou farrapo.”

“A música é o refúgio das almas feridas pela felicidade.”

“A música, sistema de adeuses, evoca uma física cujo ponto de partida não seriam os átomos, mas as lágrimas.”

CIORAN

“Penínsulas é o que somos — e nos deve sempre ser permitido continuarmos a sermos penínsulas. Eu me ressinto daqueles que ficam pressionando cada um de nós a sermos não mais do que uma molécula sem rosto de alguma terra firme, alguma terra prometida, algum reality show, algum paraíso de extremistas — tanto quanto me ressinto dos que estão tentando nos tornar um arquipélago de ilhas isoladas, cada uma mergulhada numa solidão eterna e numa perpétua luta darwinista com todos os outros.” (Amos Oz)

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