“Nietzsche e a alegria musical”, por Paulo da Costa e Silva

PIAUÍ, 14 de março de 2016

Mais do que um filósofo músico, Nietzsche parece ter sido um músico filósofo. Sim, um músico que chegou à filosofia a partir da música. No livro Nietzsche na Itália: A Viagem que Mudou os Rumos da Filosofia, Paolo D’Iorio narra a temporada do então professor de filologia no balneário de Sorrento, nas “terras do sul”. Cercado por um seleto grupo de amigos, todos hospedados na mesma pousada, Nietzsche “tira férias da própria vida”, nas palavras do estudioso italiano. Esgotado e doente, confuso e decepcionado, metido em aguda crise existencial, o filósofo pede à Universidade da Basileia uma licença médica de um ano. Entre longos passeios, cochilos, conversas íntimas e rodas de leitura com os amigos, ele aos poucos reencontra as forças necessárias para repensar os rumos de sua vida. Os ares do sul exercem extraordinário efeito sobre o seu pensamento. Nietzsche se afasta definitivamente do amigo Richard Wagner e da influência do pessimismo romântico – de todo o peso da metafísica de Schopenhauer. Começa ali a surgir um pensamento mais alegre e afirmativo. Mais leve – muito mais tarde, ele escreveria: “pés ligeiros são o primeiro atributo da divindade”. Um pensamento imanente, apegado ao mundo presente. Demasiado humano. Destinado aos “espíritos livres”, vibrando nas cores da paisagem mediterrânea.

Foi um processo lento, que se deu em meio a grandes dores. D’Iorio reconstitui momentos de extrema agonia e também de grande alegria. Nietzsche improvisando sofregamente ao piano, diante da platéia de amigos embevecidos. Nietzsche em estado de beatitude, transfigurando o sofrimento num “grande sim à vida”. E é exatamente esse júbilo musical que fornece o modelo da beatitude nietzscheana. “Pois a música”, comenta Clément Rosset, “ocupa todos os ‘centros nervosos’ da filosofia de Nietzsche.” Ela é a Revelação primeira que informa sobre o sentido, a causa e o fim de toda existência. Nietzsche recusa o consolo da metafísica e da religião porque a música já ocupa tal espaço. “Sem a música, a vida seria um erro”, escreveu em Crepúsculo dos Ídolos. Em seu “poder de dizer sim ao mundo”, a música constitui para Nietzsche uma tripla iniciação: iniciação à felicidade, à vida e à filosofia. Na música, “as paixões gozam a si mesmas”, ele escreveu em Para Além do Bem e do Mal. Em O Caso Wagner, nas páginas consagradas à ópera Carmen, de Bizet, ele ressalta sua “alegria africana”, sua felicidade “sem piedade”, sob a qual pesa “o cego destino”. “Cada vez que escutei Carmen“, ele diz, “me senti mais filósofo, melhor filósofo do que de costume me parece: tornado tão indulgente, tão feliz, tão índio, tão sereno.” A música “torna o espírito livre”, “dá asas ao pensamento”. É ela que está na origem do teatro, da poesia e da prosa, é ela que fornece o modelo de todo discurso – inclusive do discurso filosófico. O gosto musical, por outro lado, é o modelo do amor pelo real. A música é a principal via de acesso à experiência filosófica de aprovação incondicional da vida. Ou seja, ela não é uma fuga do mundo, mas uma adesão a ele. A afirmação nietzscheana do real passa pela experiência da música… [+]

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