Morre Chick Corea, pianista e um visionário do jazz americano

Morreu o pianista, teclista e lenda da música jazz Chick Corea. Tinha 79 anos e foi vítima de um cancro raro e tardiamente descoberto. “O mundo precisa de mais artistas”, disse antes de morrer.

OBSERVADOR.PT, 11/02/2021

Morreu Chick Corea, um dos mais importantes pianistas e teclistas da história do jazz norte-americano. O músico, ocasionalmente também percussionista, tinha 79 anos e morreu na terça-feira, 9 de fevereiro. A morte só foi comunicada esta quinta-feira, passados dois dias.

Ao longo da carreira, que durou mais de 50 anos e que foi distinguida com mais de 20 Grammys (mais exatamente, 23), Chick Corea gravou dezenas de discos em formações que liderou. A esses discos aliou incontáveis outros, editados por bandas como o grupo de fusão que fundou nos anos 1970 Return To Forever — pelo qual passaram músicos como o guitarrista Al Di Meola e o saxofonista Joe Farrell e do qual fez parte de forma constante o baixista Stanley Clarke — e gravados ao lado de músicos como Miles Davis, Stan Getz, Joe Henderson, John Patitucci, Wayne Shorter, entre tantos outros.

A notícia da morte foi dada através de um comunicado publicado nas contas oficiais do músico nas redes sociais. No texto lê-se: “É com uma grande tristeza que anunciamos que a 9 de fevereiro, Chick Corea faleceu. Tinha 79 anos e foi vítima de um tipo de cancro raro que só foi descoberto muito recentemente”.

Durante a sua vida e carreira, o Chick saboreou a liberdade e a diversão que tinha em criar algo novo. (…) Era um marido, um pai e um avô amado e era um grande mentor e amigo para tantos. Através do seu corpo de trabalho e das décadas que passou a fazer digressões pelo mundo, tocou e inspirou a vida de milhões de pessoas“, refere ainda o texto.

No texto de homenagem, que não surge assinado mas que tem como mensagem final um pedido da família para que se respeite “a sua privacidade durante este difícil momento de perda”, é ainda apontado que “embora ele fosse o primeiro a dizer que a sua música dizia mais do que as palavras algumas vezes poderiam dizer, tinha ainda assim uma mensagem para todos aqueles que conhecia e amava e para todos aqueles que o adoravam”.

A mensagem do músico, deixada quase como despedida, seria esta, de acordo com a nota oficial: “Quero agradecer a todos aqueles que ao longo do meu percurso ajudaram a manter as chamas da música incandescentes. É minha esperança que todos aqueles que têm uma intuição e inclinação para tocar, compor, atuar ou qualquer outra coisa o façam. Se não o fizerem por vocês, façam-no pelo resto de nós. Não só o mundo precisa de mais artistas como também é mesmo muito divertido“.

E para os meus amigos músicos que têm sido como uma família para mim desde que vos conheço: tem sido uma bênção e uma honra aprender com todos vocês e tocar com todos vós. A minha missão foi sempre levar a alegria da criação para todos os sítios onde pudesse e tê-lo feito com todos os artistas que admiro tão profundamente foi a grande riqueza da minha vida”.

No panteão dos pianistas – e com Miles na expansão do jazz

Nas últimas décadas, poucos pianistas tiveram o impacto, o reconhecimento e a capacidade de inovar e inventar novas estéticas jazzísticas quanto Chick Corea.

É habitual encontrarmos o seu nome no panteão dos pianistas do jazz americano das últimas vastas décadas, ao lado de referências como Herbie Hancock — de quem era amigo próximo e com quem tocou muito, inclusive em Portugal (em 2014, no festival EDP Cool Jazz) —, McCoy Tyner, Keith Jarrett e Bill Evans. Mas Corea, também teclista, compositor e ocasionalmente percussionista, foi mais do que isso: foi um dos mais notáveis instrumentistas e criadores musicais da América.

Importantíssimo na afirmação de um jazz de fusão no final da década de 1960 e no início da década de 1970, Chick Corea fez parte da formação do colosso Miles Davis quando o trompetista começou a colocar o jazz em diálogo com outras estéticas sonoras e populares, como o funk e o rock. Corea participou, nessa fase, na gravação de discos essenciais para compreender a história evolutiva do jazz como In a Silent Way (1969) e Bitches Brew (1970), entre outros.

Numa entrevista dada em março do ano passado, incluída no arquivo do seu site oficial, Chick Corea recordava assim o modo como Miles Davis o inspirou desde cedo:

O Miles foi o meu professor e mentor desde que o ouvi tocar em 1947, era ele então um jovem que fazia parte do quinteto do Charlie Parker. Acompanhei a sua carreira durante todos os discos a solo que fez até eu ter tocado durante dois anos e meio na sua banda, de 1968 a 1971.”

Foi ainda de Chick Corea a autoria de composições jazzísticas que são hoje reconhecidas como standards e clássicos do género: de “Spain” a “Armando’s Rhumba”, de “500 Miles High” a “Windows”.

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