JOCY DE OLIVEIRA – A Música Século XX de Jocy (1959)

01 – 00:00 Sofia suicidou-se
02 – 00:57 Pecou a rosa
03 – 02:06 Um assalto no Morumbi
04 – 03:55 Incêndio
05 – 05:53 Frida
06 – 09:25 Brasília século 1
07 – 10:53 Um crime
08 – 11:37 A lenda da chuva
09 – 13:04 O sorriso da praia
10 – 14:53 Mar de sal
11 – 16:39 A morte do violão
12 – 18:31 E a chuva nasceu
13 – 20:18 Samba gregoriano

Trechos de “Um disco que não existiu”

Por André Kangussu em http://blogdoims.com.br/um-disco-que-…

Quando, em 1959, João Gilberto lança Chega de saudade, a bossa nova inaugura-se como movimento e tem nele a síntese perfeita de seus elementos fundadores. Não raro é tomado como o álbum mais decisivo da música popular brasileira. Ainda no mesmo ano e no mesmo Rio de Janeiro era lançado outro disco de bossa nova que já punha em questão seus recursos e que, em termos de importância, não existiu. Trata-se de A música século XX de Jocy, da curitibana Jocy de Oliveira.

Aos 23, idade em que lançou o disco, Jocy já era uma pianista celebrada, tendo sido solista na Orquestra Sinfônica Brasileira e se apresentado na Europa e nos Estados Unidos, sempre sob a regência de seu então marido, o maestro Eleazar de Carvalho. Sua formação nada tinha a ver com música popular, e o álbum foi sua única obra nesse campo. Suas composições futuras seriam todas eruditas e de alto teor experimental.

A música século XX se posiciona de modo ambíguo em relação à bossa: ora se conforma a ela, ora a toma como um estilo a ser revisto, parodiado e deformado.

A conformidade começa pela capa, que assume o violão, instrumento que os sambistas modernos haviam recentemente resgatado da condição marginal. Também a maneira de tocá-lo é inconfundivelmente joão-gilbertiana. Além disso, Jocy, autora de todas as canções, demonstra habilidade no trato da harmonia e da dissonância, o que, se já era uma prática no samba, a bossa nova levaria a um nível inaudito de sofisticação.

A compositora, que nunca seria intérprete de suas peças eruditas e experimentais para voz, conta que, por não se reconhecer como cantora, só assumiu o canto no disco porque nem ela nem a gravadora dispuseram de cantor ou cantora adequados. Sua voz é de projeção modesta e opera sobretudo nas zonas mais graves de sua extensão vocal, o que, longe de ser um problema, faz do disco um experimento bossa-novista ainda mais autêntico.

Ao mesmo tempo Jocy superpovoa sua música de elementos que desestabilizam e deformam a bossa. O mais evidente são as letras. Carlos Lyra escreve em “Eu e a bossa”: “Até o início dos anos 60, a chamada Bossa Nova caracterizou-se pela busca da forma na melodia, na letra, na harmonia, no ritmo e na interpretação. O conteúdo era o mais lírico e comportado possível. Poderíamos dizer que era a fase do amor, do sorriso e da flor. O correr dos anos 60 foi, no entanto, indicando um novo caminho. Tópicos como nacionalismo, realidade brasileira, raízes, reforma agrária, justiça social e consciência política exerceram o papel de antítese em relação à temática anterior.”

A frenética “Sofia suicidou-se” abre o disco anunciando ao modo de um jornal sensacionalista o suicídio sem explicação de uma moça rica e bela, figura que à bossa daquele momento apenas serviria de musa feliz e solar. Pelas frestas desta e da personagem de “Frida”, outra canção que também traz à cena uma vítima da impiedade urbana, avisto sinais de “Lindoneia”, a personagem-canção que Caetano e Gil criariam em 1967 a partir de uma serigrafia de Rubens Gerchman que tematiza o subúrbio e a solidão anônima.

Ainda que a intenção parodística pareça ostensiva, as canções estendem seu valor para além da piada. A habilidade lírica de Jocy se dá a ver em “Um assalto no Morumbi”, talvez o momento mais alto do disco, em que se reduz a descrição do furto a uma síntese expressiva de imagens plásticas.

Para gravar o disco, Jocy relata que levava suas composições transcritas em partituras ao estúdio da gravadora Copacabana. Depois de duas semanas a sair de casa à meia-noite e voltar de manhã sem resultados, Eleazar de Carvalho decidiu visitar o estúdio para entender o que acontecia. Quando entendeu que os músicos (entre os quais, o virtuoso flautista Altamiro Carrilho, também responsável pela produção musical), embora excelentes, não se mostravam aptos a trabalhar com aquela música estranha, o maestro decidiu reger e, em uma noite, o disco foi gravado. Essa pressa traduz-se em uma charmosa atmosfera lo-fi. Apesar do hábil trabalho, o nome do regente foi suprimido do disco em favor da boa reputação.

A década de 1960 foi decisiva em nossa música. É tentador imaginar a carreira que Jocy teria construído em diálogo com os músicos dessa geração se houvesse prosseguido com a canção popular.

Sobrou-nos, de qualquer modo, um disco. É preciso propor que ele seja reconhecido não só pelo seu diálogo com a bossa nova ou pelo seu caráter de exceção e curiosidade histórica, mas como um álbum de música popular pleno.

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